24 01 2021 politica maia anti bolsonaroPresidente da Câmara dos Deputados por três mandatos, Rodrigo Maia (DEM-RJ) encerrará no dia 1° de fevereiro um ciclo político.

Ao longo de cinco anos, capitalizou e construiu uma agenda do parlamento, cujo símbolo mais evidente é a reforma da Previdência. Em meio à crise política, oscilou bons e maus momentos na relação com o governo. Antes aliado de líderes do centrão, agora se afasta deles para tentar eleger seu sucessor.

A postura diante de Jair Bolsonaro é de confronto. O impeachment é cogitado abertamente, desde que haja uma aceitação maior na sociedade. Durante o mandato de Michel Temer, por outro lado, Maia teve papel fundamental para preservar o governo — articulou a favor do arquivamento de duas denúncias feitas pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em março de 2019, quase um mês após o governo Bolsonaro enviar a proposta de reforma da Previdência ao Congresso, Maia era achincalhado por bolsonaristas nas redes sociais. No dia 18, após sair de uma palestra da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio, foi advertido sobre o dono do perfil que irradiava os ataques: Carlos Bolsonaro. Naquele momento, decidiu revidar pela primeira vez: qualificou o governo como um "deserto de ideias".

Guedes se afastou

Fez críticas a dois pontos da proposta que eram impopulares no Congresso: a revisão do benefício para idosos pobres e deficientes (BPC) e mudanças na aposentadoria rural. Também comprou briga ao afirmar que o pacote anticrime, do então ministro da Justiça, Sergio Moro, só seria apreciado depois. A partir daí, a relação só piorou.

Passou a ter desavenças também com o ministro da Economia, Paulo Guedes, quando passou a ser visto como o principal articulador da reforma.

— Chegou ao ponto de (Guedes) fazer uma reunião comigo e dizer que, se eu quisesse ter uma boa relação com ele, eu teria que parar de falar com o economista Marcos Lisboa. Eu disse: "Paulo, não há chance de eu parar de falar com os economistas que me ajudaram a chegar até aqui" — relembra Maia.

Com Bolsonaro, tinha dificuldades de conversar sobre a agenda do país. Tentou apenas uma única vez dizer que não estava atuando contra o seu governo.

— O senhor fica achando que tem conspiração contra o senhor, não tem nenhuma. O senhor não pode esquecer que eu tive a possibilidade de conspirar e ser presidente da República e não fiz — disse Maia a Bolsonaro, lembrando das turbulências do governo Temer.

Maia trata a discussão do impeachment como questão de tempo, mas defende "racionalidade" para que Bolsonaro não se fortaleça em um processo frustrado. Cita Donald Trump como alerta — para ele, a negativa do processo pelo Senado deu capital político ao republicano, que o desperdiçou com o negacionismo na pandemia.

Durante cinco anos, Maia se reuniu com líderes do centrão em sua residência para definir os rumos da pauta. Dois deles se enfrentam hoje para sucedê-lo: Arthur Lira (PP-AL), com o apoio de Bolsonaro, e Baleia Rossi (MDB-SP), seu indicado.

O grupo de não mais que dez parlamentares se fechava e definia as pautas. A rotina gerou insatisfação e virou bandeira de Lira, que acusa Maia de não ter ouvido toda a Casa.

Quando assumiu a presidência da Câmara pela primeira vez, em 2016, Maia tinha um problema em suas mãos: precisava dar prosseguimento ao processo de cassação de Eduardo Cunha (MDB-RJ), seu antecessor, com quem mantinha boa relação.

Logo que assumiu a presidência, combinou uma data para o julgamento de Cunha com um emissário do emedebista: 12 de setembro de 2016. Foi o processo de cassação mais longo da História. Até hoje, Maia reconhece que o ex-colega teve grande importância para impulsionar o seu mandato, por ter lhe concedido a relatoria da reforma política, em 2015.

Quando se aproximava a data da cassação, aliados de Cunha, inclusive Arthur Lira, foram à residência de Maia pedir o adiamento da sessão. Com medo de ser desmoralizado, Maia não recuou e manteve a data. Lira e os colegas, então, ameaçaram não dar quórum para a votação. Em vão. Cunha foi cassado no dia marcado.

O ano seguinte também reservou momentos turbulentos. Em 17 de maio de 2017, quando o colunista do GLOBO Lauro Jardim publicou informações da delação de Joesley Batista, a Lava-Jato abalou o governo Michel Temer. A PGR dizia que o então presidente dera aval para a compra do silêncio de Cunha pelo dono da JBS. Maia, porém, passou a trabalhar pela manutenção do governo.

No dia posterior à publicação, levou o então ministro da Educação, Mendonça Filho, para conversar com o ex-prefeito Cesar Maia, no Rio. O pai do presidente da Câmara tinha a missão de convencê-lo de que não era hora de desembarcar do governo. Se houvesse uma saída do DEM, a expectativa era que o PSDB acompanhasse. E haveria um efeito cascata.

— Na conversa, o Cesar disse que era preciso esperar baixar a poeira, para que os fatos pudessem ser esclarecidos. Ele ajudou a sedimentar essa posição — diz Mendonça Filho.

Frente para 2022

Temer, hoje inocentado da acusação de obstrução de Justiça, reconheceu o papel de Maia:

— O Rodrigo percebeu a indignidade e as falsidades daquele gesto e, de fato, pregou a permanência dos partidos aliados no governo, continuando a apoiar as reformas que propúnhamos — diz Temer.

Aliados do emedebista, no entanto, duvidavam de Maia. Ex-ministro de Temer, Carlos Marun diz que recebia "alertas do Congresso" que acusavam o presidente da Câmara de conspirar para assumir a cadeira de Temer, por ser o próximo na linha sucessória. Maia, porém, seguiu trabalhando para derrotar as denúncias.

E deixará agora seu cargo com o plano de construir um projeto nacional para 2022, com objetivo de evitar uma polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula. Mas garante que não vai liderar essa chapa.


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