09 03 2021 geral pepe le pewProgramado para estrear em julho, o filme "Space Jam: Um novo legado" sofreu uma baixa em seu elenco.

O gambá Pepe Le Pew, ou Pepe Le Gambá, não vai mais aparecer na continuação de "Space Jam: O jogo do século", blockbuster de 1996 protagonizado pelo astro da NBA Michael Jordan. O novo live-action tem como principal estrela o jogador LeBron James, também produtor do longa.

De acordo com o site "Deadline", o personagem teve cortada do filme uma cena rodada em junho de 2019, em que ele surge como barman. Enquanto atende uma cliente no balcão, interpretada pela brasileira Greice Santo ("Jane the virgin"), Pepe Le Pew começa a paquerá-la e beijar seu braço. Irritada, a mulher se afasta, joga a bebida nele e lhe dá um tapa. O gambá, então, é socorrido por LeBron e Pernalonga.

A cena foi comandada por Terence Nance, primeiro diretor de "Space Jam: Um novo legado". Ele deixou o posto em 2019, abrindo espaço para Malcolm D. Lee, que teria decidido subtrair a sequência com Pepe Le Pew logo após ter assumido a cadeira de direção. A notícia sobre a "demissão" do personagem, no entanto, só veio à tona no fim de semana.

Ao "Deadline", um porta-voz da Greice Santo comunicou que a brasileira lamenta o corte da cena. Vítima de assédio sexual no passado, a atriz comanda a ONG Glam with Greice, que visa capacitar as vítimas de violência doméstica. Segundo a assessoria, Greice estava "muito orgulhosa" por ter sido a escolhida por "castigar" o gambá.

O gambá e a cultura do estupro

Idealizado por Chuck Jones em 1930 e visto em animação pela primeira vez em 1945, Pepe Le Pew é uma figura do universo Looney Tunes, criado pela Warner. Curiosamente, seu nome já vinha sendo alvo de muita polêmica nos últimos dias por causa de um artigo publicado por Charles M. Blow, colunista do "The New York Times".

Em seu texto, Blow problematiza diversos personagens de animações clássicas e afirma que Pepe Le Pew "normaliza a cultura do estupro". O jornalista também argumenta que o racismo é elemento presente do imaginário infantil. Blow usa como exemplos o Ligeirinho (Warner), que reforçaria estereótipos sobre mexicanos, e a empregada dos episódios de Tom & Jerry (Hanna Barbera), uma figura negra que somente aparece em tela com as pernas à mostra e uma dublagem caricata.

No Twitter, o colunista reforçou as críticas a Pepe Le Pew após, segundo ele, ter sido atacado por blogs de direita. "Eles estão loucos porque eu disse que Pepe Le Pew acrescentou à cultura do estupro. Vamos ver. Ele agarra/beija uma garota desconhecida repetidamente, sem consentimento, contra sua vontade. Ela luta fortemente para se afastar dele, mas ele não a solta. Ele tranca uma porta para impedi-la de escapar", postou Blow.

Na sequência, o jornalista diz: "Isso ajudou a ensinar aos meninos que ‘não’ não significava realmente não, que era parte do ‘jogo’, a linha de partida de uma luta pelo poder. Ensinou que superar as objeções rígidas e até físicas de uma mulher era normal, adorável, engraçado. Eles nem mesmo deram à mulher a habilidade de falar".

Revisão histórica animada

O caso de Pepe Le Pew, aliás, não é isolado. Em 2019, na ocasião do lançamento do Disney+ nos Estados Unidos, o estúdio decidiu adotar um alerta exibido antes de alguns de seus clássicos.

"Este programa é apresentado como originalmente criado. Pode conter representações culturais desatualizadas", diz o aviso que antecede filmes como "Peter Pan" (1953), "A Dama e o Vagabundo" (1955), "Fantasia" (1940), "Mogli, o Menino Lobo" (1967) e "Dumbo" (1941), além de curtas do Mickey Mouse produzidos entre as décadas de 1920 e 1940. São todos clássicos do cinema americano que já enfrentaram críticas por imagens racistas ou estereotipadas.

A Warner também optou por ocultar da plataforma HBO Max os desenhos racistas do Pernalonga lançados nos anos 1940.

Na semana passada, foi suspensa a publicação de seis livros do Dr. Seuss, pseudônimo de Theodor Geisel, popular escritor americano de literatura infantil. Entre seus personagens mais famosos estão Grinch e O Gato de Chapéu.

Em comunicado oficial a editora Dr. Seuss Enterprises admitiu que os títulos suspensos trazem desenhos racistas. A empresa diz ter submetido seu catálogo a uma banca de especialistas e concluído que os livros em questão retratam "as pessoas de uma maneira errada e dolorosa".


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