30 03 2019 regiao bananalEm 1909, residindo em Areias, o promotor de Justiça Monteiro Lobato se inspirou na decadência econômica das cidades do Vale Histórico pra escrever uma das obras mais exaltadas da literatura brasileira. Depois da riqueza provocada pelo áureo ciclo do café, as cidades foram limitadas pelo ostracismo. Monteiro Lobato testemunhou esse tempo e o tornou imortal no livro Cidades Mortas.

A reportagem do Jornal O VALE, de maior circulação na região, visitou as cidades “mortas”. O Impacto reproduz na íntegra a reportagem.

(texto de Xandu Alves)

Sentado à mesa de madeira, o escritor vê a vida ao redor parada no tempo, longe da riqueza de outrora. Ele procura traços de progresso, mas só encontra traça e poeira no tempo vivido. Quer traduzir aqueles sentimentos na folha de papel em branco. Surge um conto, cria-se outro. Nasce um livro. Ele o batiza de “Cidades Mortas”, de Monteiro Lobato.

Publicado em 1919, o livro de um dos maiores escritores brasileiros chega ao centenário ainda relevante. Faz parte da obra de Lobato para adultos, composta de poucos volumes, como Urupês (1918) e Ideias de Jeca Tatu (1919). Separada pelo século, a obra do escritor de Taubaté urge em seu dilema e nos deixa o fundamental questionamento: as cidades ainda estão mortas?

Lobato descreve na obra a vida nas pequenas cidades do Vale Histórico. Ele viveu em Areias entre 1907 e 1911 quando lá trabalhou como promotor público. Observou seus pares e, na qualidade de cronista do tempo, transformou o que viu em literatura, criando personagens e duas cidades fictícias --Itaoca e Oblivion (esquecimento em inglês).

No centenário de “Cidades Mortas”, OVALE refaz a aventura de Lobato pelo Vale Histórico e vê as dificuldades na gestão das cidades que perdem cada vez mais recursos e população. Por outro lado, a história faz a diferença e o epitáfio da obra de Lobato pode transmutar-se na maior virtude da região. A tranquilidade do interior vale ouro em tempos acelerados. É no turismo que as cidades mortas se apegam à vida.

No casarão construído em 1842, de largas e altas janelas e piso de madeira, Guilherme Carvalho da Silva vê a praça da cidade ao despachar todos os dias como prefeito de Silveiras. O tempo ali parece passar mais devagar na cidade de 6,2 mil habitantes.

Na década de 20 do século passado, em razão da riqueza do café, Silveiras chegou a ter 35 mil moradores. O declínio da monocultura e o êxodo rural intensificaram a saída de habitantes. Com isso, o município perdeu população economicamente ativa, renda e recursos para a gestão pública, a ponto de ameaçar a sobrevivência da própria cidade, dificuldade compartilhada por outros municípios do Vale Histórico, como Areias, Arapeí, Bananal e São José dos Barreiro, por exemplo.

“Todas as cidades com menos de 10 mil habitantes ficarão inviáveis para as prefeituras”, afirma Silva. “Não
sei qual o modelo de gestão devemos ter, mas os recursos estão diminuindo a cada dia”.

Percorrendo os corredores do casarão que já foi cinema, escola e até “inferninho”, o prefeito garante que a saída é pela cultura. É no DNA histórico dos municípios que a região se apega.

O futuro está ali mesmo, naquilo que Monteiro Lobato criticou em seu tempo, no centenário livro “Cidades Mortas”, mas que virou a receita para o renascimento. Só que a situação está longe do ideal. “O turismo é a fada das cidades pequenas. Gera emprego, serviços e renda para os moradores. Mas ainda chega pouco recurso para investir na estrutura, como estradas e serviços”, conta Silva.

Debaixo da sede da prefeitura, a professora Eliana Quintanilha da Fonseca é guardiã do Espaço Cultural Nenê Emboava. Estão ali parte da história, peças de artesanato e homenagens a tropeiros lendários, cuja atividade marca a cidade.

A festa dos tropeiros de Silveiras é tradicional no interior. Há várias peças de madeira feitas de caixeta, árvore que se transforma em relicários, caixas e objetos dos tropeiros. “Temos uma riqueza cultural que não pode ser esquecida”, afirma Eliana. No calor do meio-dia, no sossego da praça, um gari varre a rua de paralelepípedos. Lentamente, como tudo aqui.

Homem das tesouras, Bichinho cortou cabelo de governador e de sertanejo

Aos 75 anos, Waldomiro Moreira da Silva é mais conhecido pelo apelido que herdou do irmão mais velho, na época da escola: Bichinho.

Figura respeitada na região, ele mantém, há 48 anos, uma barbearia num espaço minúsculo, um pouco maior do que um grande elevador, que abriga milhares de chaveiros, fotos, quadros, artesanato e bugigangas cheias de afeto e recordações.

"Aqui foi a primeira galeria de arte do Vale Histórico", diz ele. Gente importante já se sentou na cadeira de Bichinho e passou por suas tesouras, como os ex-governadores Geraldo Alckmin e Fleury Filho e o Trio Parada Dura. Mas é a população da região que sustenta o barbeiro, que esteve perto de ver a "morte" da cidade. "Silveiras quase acabou. Na década de 80, ficou com pouco mais de 2.000 habitantes. Daí foi melhorando com o artesanato, a gastronomia e o turismo, que são a nossa força".

Vida pacata é receita de longevidade e felicidade para moradores do Vale Histórico: paz e sossego

Cidades mortas podem morrer mais de uma vez. Não são raros os pontos históricos que vão aos poucos se perdendo para os desafios da modernidade. A economia corre e a história tropeça. Em Bananal, quase na divisa com o Rio de Janeiro, a lendária ‘Pharmacia Popular’ não existe mais da maneira como ficou tradicionalmente conhecida no país, quando ostentou o título de “a farmácia mais antiga do Brasil”.

Depois de fechada em 2011, após a morte do proprietário, Plínio Graça, ex-prefeito de Bananal, a loja foi reaberta completamente remodelada. No lugar de velhos frascos e rótulos do Brasil Império, estantes de fraldas e cosméticos. A velha registradora deu lugar à máquina de cartões.

Com o nome de “Pharmacia Imperial”, a loja foi aberta em 1830 pelo francês Tourim Monsier, que chegou à cidade disposto a se tornar barão do café, mas desistiu de ser fazendeiro e voltou às origens como boticário. A loja mudou de nome em 1889 após a proclamação da república e manteve o ‘Pharmacia Popular’ na fachada até os dias atuais, mas sem o charmoso interior de seus 189 anos. Plínio Graça era neto do coronel
que comprara a farmácia do segundo dono, em 1918.

Bem pertinho dali, o comerciante José Carlos da Cruz, 42 anos, atende fregueses num largo balcão de madeira, ao lado de sacos de feijão e arroz. O ‘Armazém da Zilá’ é hoje o mais antigo comércio da cidade, com mais de 60 anos.

“Aqui nada é feito com pressa. Acho que os turistas vêm atrás dessa tranquilidade”, conta o atendente. É no ritmo do crochê que Bananal tenta resgatar a velha glória. Na ‘Casa do Artesão’, Marivalda Almeida, 45 anos, expõe suas peças e de outros 11 artistas. Eles atuam em parceria com o prédio cedido pela prefeitura. “Precisamos criar mais eventos para atrair visitantes”, diz ela.

Numa casinha aos pés da igreja de Sant’Ana, padroeira de São José do Barreiro, o lavrador Domingos Jorge, 59 anos, diz que não quer instalar internet em casa. Criado na roça, onde “faz de tudo”, ele se apega à vida do interior de corpo e alma. Já as filhas estão partindo. “Elas querem emprego e aqui não tem”.

'Quem nasce aqui não se acostuma com o agito', diz Marina, 85 anos

"Já me contaram que tem uma fortuna em Portugal do meu avô, da família Crespo. Nem quero saber. Não ligo para isso".

Aos 85 anos e com espírito de juventude, Marina Crespo Maia é um exemplo aos moradores de São José do Barreiro, onde vive desde que nasceu. Ela faz questão de abrir a farmácia da família todos os dias, mesmo depois da morte do marido, que tocava o negócio. Com os dedos magros e um largo sorriso, conta que tem três filhos, seis netos e quatro bisnetos.

"Quem nasceu aqui não se acostuma com o agito de cidade grande. A gente quer é essa tranquilidade", diz ela mostrando a praça cheia de moradores nos bancos, conversando. Não passa carro nas ruas. E nem era domingo.

30 03 2019 regiao monteiro lobatoParte da obra “para adultos” de Lobato, o livro “Cidades Mortas” tem conexão com o presente

O livro “Cidades Mortas” nasceu de contos que Monteiro Lobato vinha escrevendo no início do século 1900 sobre a vida no Vale do Paraíba. A obra saiu em 1919. “Ele vinha preparando esse livro de certo tempo e só publica quando abre a editora”, diz Luzimar Goulart Gouvêa, mestre em Teoria e História Literária e professor no Departamento de Ciências Sociais e Letras da Unitau (Universidade de Taubaté).

Boa parte do livro nasceu enquanto Lobato trabalhava como promotor público em Areias, entre 1907 e 1911, e faz parte da obra “para adultos” do escritor, internacionalmente famoso pela criação do Sítio do Picapau Amarelo.

A chave para melhor entender o olhar do escritor sobre a região está, na avaliação de Gouvêa, no livro “A Barca de Gleyre”, de 1944, que compila 40 anos de correspondência entre Lobato e seu colega e juiz Godofredo Rangel. “Dá para ver a gênese da escrita do Monteiro, que deixou registrada nas cartas a Godofredo”.

Progressista, Lobato critica o isolamento das cidades da região e a mentalidade da época, de permanência no “atraso”. “O Lobato desses primeiros tempos está muito preocupado com atraso do homem do
campo”, explica Gouvêa. “Ele critica esse imobilismo das pessoas. Têm equívocos e acertos na visão dele”.

“Monteiro criticava as mesmices dessas cidades, e isso não mudou, são as mesmas coisas, mas é movimento próprio do interior”, avalia o professor e historiador Diego Amaro de Almeida, presidente do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos).

Para ele, para não continuarem “mortas”, as cidades precisam resgatar a identidade, planejar o turismo regional e aproveitar as virtudes da vida no interior. “A região ainda não pensou nisso, é como estar em cidades do século 19, tem que aproveitar”, diz Almeida. Para ele, os gestores têm que pensar mais a longo prazo e investir no resgate da identidade do Vale Histórico. “Falta do conhecimento mesmo. As pessoas desconhecem essa história. Não é relegada, é desconhecida”.

'Cidades Mortas separa o Vale de Lobato', diz pesquisador

Idealizador do Almanaque Urupês, de Taubaté, o produtor e editor Pedro Rubim é apaixonado, e profundo conhecedor, da obra de Monteiro Lobato. Segundo ele, 'Cidades Mortas' foi o livro que marcou a cisão do escritor taubateano com o Vale do Paraíba, especialmente com a elite de seu tempo. As tradicionais famílias não gostaram da descrição que Lobato fez da vida pacata do interior. "Esse livro redefiniu a presença e o futuro de Lobato no Vale. Havia um grupo pró-Lobato e outro contra. E teria sido o livro que estigmatizou a região. Há ruptura dele com o Vale que dura até hoje".

Para ele, há quem tenha "dificuldade de tratar a obra adulta de Lobato", que ele considera uma das "mais importantes na metade do século 20", colocando o escritor entre os maiores pensadores brasileiros. Neste ano, o centenário de 'Cidades Mortas' será um dos temas da Semana Monteiro Lobato, entre 16 e 21 de abril, no Taubaté Shopping.


an paulo bento

an luiz octavio