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O Impacto História – Paulo Antônio de Carvalho

Na década de 1940, a economia de Cruzeiro, além das indústrias e do comércio, também contava com a Zona de Prostituição como um de seus pilares. O intenso fluxo de homens e de “mulheres de vida fácil” – como chamadas na época as prostitutas – movimentava bares, lanchonetes, hospedarias, charreteiros, lojas de roupas, de móveis e salões de beleza.

Apesar dos dividendos econômicos, a Zona de Prostituição em tempo algum teve sua história por inteiro retratada em jornais, livros ou em quaisquer outras publicações acerca da história de Cruzeiro. Exceção para a edição 69 do Jornal O IMPACTO, onde se lê o resumo histórico a respeito.

Historiadores e pesquisadores optaram pela omissão, influenciados pelos princípios conservadores da sociedade. Denota-se que a população convivia com a prostituição, apesar do preconceito, por saber de sua real influência na economia local.

Reconhecida como uma das maiores na região, a zona tornou Cruzeiro famosa no triângulo São Paulo – Rio – Minas. Nas noites de sexta-feira e de sábado, os carros de passageiros chegavam lotados na Estação Central, homens em busca de prazer sexual. Somados aos da própria cidade e da região, centenas se aglomeravam nos bares e boates no Bairro do Norte.

A oferta de mulheres disponíveis também aumentava nos finais de semana. Vindas de cidades da região ou das capitais, dezenas se somavam às residentes. Nessas ocasiões, o contingente avançava a mais de duzentas entre bares, boates e ruas do Bairro do Norte.

Naquela época, década de 1940, a zona do Bairro do Norte não figurava como a única na cidade. Havia outra, embora menor, na chamada Favela, também conhecida como Buraco Quente, no Bairro de Santa Luzia. Segundo relatos, era frequentada mais por motoristas de caminhões que chegavam do Sul de Minas na rota Rio ou São Paulo.

AS ORIGENS

A Zona de Prostituição surgiu em Cruzeiro em 1881, mesmo ano do início da construção da Ferrovia The Minas And Rio. Para as obras nos 170 quilômetros entre a Estação do Cruzeiro e Três Corações (MG), a companhia inglesa contratou perto de quatro mil trabalhadores. Centenas permaneceram por mais de três anos nos alojamentos no canteiro de obras central e na região do Grande Túnel.

Para satisfazer as necessidades dos trabalhadores, o engenheiro Herbert Hunt promovia a vinda de mulheres do Rio e de São Paulo em intervalos de quinze dias. Na fase de obras, as prostitutas atendiam em barracas de lona nas áreas dos alojamentos.

Antes da conclusão da ferrovia, em meados de 1884, Herbert Hunt estimulou a construção de casas entre a Rua 1 e o Rio Paraíba destinadas às prostitutas. De acordo com versão, a maioria era de viúvas de soldados brasileiros mortos durante a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870. Procedentes do norte do País, essas mulheres influenciaram o nome de Bairro do Norte.

Aceitando ou não a sociedade conservadora, a história não pode ocultar a citação do Bairro do Norte como o primeiro núcleo de residências da futura cidade de Cruzeiro.

AS PAIXÕES

Não mais que cem metros separavam a Estação Central da Zona do Meretrício. Mesmo assim, passos apressados logo venciam os trilhos ferroviários na rota do prazer. Os clientes noturnos, boêmios na maioria, avançavam pela noite.

Os homens tidos como da sociedade local evitavam frequência noturna. Habitualmente, empresários, comerciantes, fazendeiros, profissionais liberais e políticos faziam suas investidas no meio da tarde. Havia quem ganhasse dinheiro, os mensageiros encarregados de levar bilhetes às mulheres sobre a hora oportuna para os encontros. Da zona várias mulheres foram retiradas por endinheirados apaixonados, constituindo famílias paralelas.

A VIOLÊNCIA

No ciclo de acelerado crescimento, na década de 1940, a prostituição no Bairro do Norte também influenciou os registros de violência na cidade. Homens brigando por mulheres ou mulheres brigando por clientes. Vários casos de agressões estavam ligados aos ciúmes.

Nas estatísticas da violência os casos de homens que insistiam manter na zona mulheres como se exclusivas fossem. Quando se depararam com as suas prediletas dançando ou bebericando com outros homens, logo começavam as desavenças.

Incontáveis os casos de jovens que frequentavam as boates e bares com o intuito de promover badernas ou dispostos a acertos de contas por rixas. Também cresceu o tráfico de maconha. Quem quisesse sustentar o vício encontrava a erva apenas nas esquinas da zona.

DESORDEM E ASSASSINATO

Casa noturna de intensa agitação, o cabaré Dancing Trianon, da cafetina Minerva Moreira da Costa, foi palco em 1948 de assassinato de grande repercussão.

No dia 13 de junho, perto das 23h30, Minerva acionou policiais para conter desordem provocada pelos jovens Nilton Teixeira Pinto, o Gordo; Walter Loielo e Pedro Batista Braga, todos na faixa de 20 anos de idade.. Na boate, eles viraram mesas, cadeiras, quebraram garrafas e provocaram correria de prostitutas e clientes.

O episódio acarretou a morte de Nilton Gordo, abatido com tiro disparado por policial. Segundo o registro, os três teriam resistido à ordem de prisão e entrado em luta corporal com os soldados Augusto Agostinho dos Santos e Waldomiro Lino Reis ainda no interior da casa.

Pouco depois, em frente ao cabaré, Gordo, Walter e Pedro teriam dominado os policiais e deles tomado os espadins e os revólveres. No entanto, durante a briga, Augusto Agostinho conseguiu retomar a arma e matou Gordo.

Dias depois, em depoimentos, Walter Loielo e Pedro Braga assumiram a desordem e acusaram o policial de disparo pelas costas. Segundo eles, o tiro seria desnecessário. Por sua vez, Augusto Agostinho alegou legítima defesa após ter recuperado o revólver que estava em poder da vítima.

O caso ganhou grande repercussão. Os três jovens eram de famílias ricas na cidade.

A REPRESSÃO

Em agosto de 1948, o delegado de policia João Ronali determinou o fechamento das boates, dos bares e implantou rondas noturnas como medida de repressão. Os policiais tinham ordens para prender todos os homens e mulheres que circulassem pelas ruas do Bairro do Norte. A ação do delegado Ronali teria sido influenciada pelas famílias dos jovens envolvidos no caso da Trianon e por religiosos.

Segundo Ronali, a prostituição “estava tirando o sossego das famílias cruzeirenses”. Dados divulgados pelo delegado indicavam aumento nos índices de violência na cidade e que “90 por cento dos registros de brigas, assassinatos, furtos, roubos e tráfico de drogas ocorriam no eixo do Bairro do Norte”.

A repressão perdurou por apenas três meses. Em novembro, a reabertura da zona ocorreu por influência de comerciantes. O vazio nas ruas do Norte repercutia nas lojas e nas hospedarias. Até os charreteiros reclamavam. Por conta da pressão econômica, o delegado João Ronali cessou as investidas policiais e o centro de prostituição retomou o fluxo.


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