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Irma Alvin na Santa CasaUm dos grandes feitos históricos ocorreu no início da década de 1910, marcado pela grande mobilização popular voltada para a construção do primeiro prédio da Santa Casa de Misericórdia.

Durante o processo de doação do terreno à Diocese de Lorena, em 1914, o primeiro registro de constituição do hospital ocorreu no dia 5 de abril. No mesmo mês, dia 16, o casal Rosalina Novaes e Antônio Celestino oficializou a escritura de doação.

No dia 30 de novembro de 1919, foi constituída a comissão encarregada da construção, presidida pelo médico Carlos Varella. A conclusão do primeiro prédio ocorreu em março de 1926. A Mesa Diretora foi formada na assembléia do dia 4 de abril da quele ano, cabendo ao Major Hermógenes de Azevedo a função de Provedor. Meses depois, em 15 de agosto, a Santa Casa foi inaugurada oficialmente em solenidade que contou com as presenças de religiosos e autoridades da cidade e da região.

As fases de construção e de expansão do hospital marcaram fortes mobilizações populares. Por conta das famílias ricas, o dinheiro para a aquisição dos meterias enquanto os pobres empregavam tempo disponível na execução da obra.

Dentre as várias campanhas, notabilizou-se a de 1918. No Cine D’Luxo, cinco eventos noturnos, com palestras e encenações, arrecadaram 1:200$000, conforme balanço divulgado no dia 2 de fevereiro daquela ano.

Em setembro de 1919, voluntários realizaram vários dias de quermesse para arrecadar dinheiro visando à conclusão do primeiro pavilhão, obras de acabamento e de telhado. A quermesse arrecadou 15:000$000. Com projeto elaborado pelo arquiteto Carlos Rossetti, os serviços foram executados por pedreiros e carpinteiros contratados pela direção do hospital.

POLÊMICA – As publicações em jornais da época indicam que a Santa Casa foi alvo de disputas entre grupos políticos rivais. De um lado, o prefeito Hermógenes de Sousa; do outro, Humberto de Lucas, Crhispim Bastos, Mário da Silva Pinto e outros. Além de prefeito, Hermógenes também ocupava a função de Provedor da Santa Casa, razão das acusações de que estaria usando o hospital para satisfazer seus interesses políticos.

No dia 17 de julho de 1927, assembléia elegeu novos membros para a Mesa Diretora e indicou o nome de Crhispim Bastos para o comando. O Major Hermógenes, ao perceber que políticos de oposição passariam a ter maioria na Mesa, decidiu não reconhecer o resultado da assembléia.
Inconformados, vários suspenderam ajuda financeira ao hospital. Em represália, Hermógenes fechou a Santa Casa no começo de outubro e fixou, na porta de entrada, comunicado assegurando que os atendimentos permaneceriam suspensos enquanto perdurasse a crise financeira.

No curso da polêmica, o major provedor proibiu que o médico Mário da Silva Pinto continuasse prestando serviços voluntários aos pacientes do hospital devido ao posicionamento político do profissional. Em solidariedade ao amigo, o médico Diogo Bastos se afastou do corpo clínico.
Mário Pinto e Diogo Bastos figuravam como médicos de grande popularidade. Diante de pesadas críticas de opositores e da repercussão popular, Hermógenes reconsiderou. A Santa Casa foi reaberta dias depois e seguiram as campanhas para a sua ampliação.

O Hospital oficial da Revolução de 1932

Pouco depois da eclosão da Revolução de 1932, o provedor João Lemos Soares enviou carta no dia 17 de julho ao secretário de Educação e Saúde do Estado, Rodrigues Alves Sobrinho, dispondo a Santa Casa aos soldados estaduais e federais feridos em batalhas na região. Diante da precariedade de equipamentos e de instrumentos no hospital, o comando militar mandou instalar outros para suprir a forte demanda de feridos.

No final das batalhas, trataram as autoridades de saúde da remoção de instrumentos e equipamentos. De Cruzeiro, o material hospitalar foi vistoriado em Guaratinguetá e seria destinado ao Hospital do Sangue, em Taubaté. Durante a transferência também foram retirados equipamentos da própria Santa Casa. Por consequência, o hospital ficou sem meios de manter o funcionamento.

A paralisação motivou a direção do hospital e os políticos da cidade. Diante da constatação de que os materiais não foram para Taubaté e, sim, para o depósito do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, houve a intervenção da Cruz Vermelha para que equipamentos e instrumentos, incluindo os instalados pelo governo estadual durante a revolução, fossem devolvidos à Santa Casa.

Freiras foram recebidas com festa na cidade

Irma Alvin

O dia 23 de maio de 1933 marcou a chegada das primeiras Irmãs Vicentinas para atuação na Santa Casa. No final da manhã, na Estação Central, procedentes do Rio de Janeiro, foram recebidas com festa a Irmã Serrano, superiora e farmacêutica, e as Irmãs Auxiliares Gomide e Margarida.

As boas vindas foram por conta de Virgílio Antunes de Oliveira e Crispim Bastos ainda na estação, tomada por grande concentração e apresentação da Banda União dos Artistas de Cruzeiro. Em seguida, Serrano, Gomide e Margarida almoçaram com as autoridades na Residência dos Ingleses.

No início da tarde, na Santa Casa, durante solenidade, as três foram homenageadas pela Mesa Diretora e representantes de entidades assistenciais. Em nome da família cruzeirense, Luíza Rezende Marques discursou enaltecendo a importância da atuação das Irmãs Vicentinas na estrutura administrativa e no atendimento aos pacientes.

Repercussão de Irmã Alvin foi parar no Vaticano

Mineira de Santos Dumont (MG), a Irmã Alvin, também conhecida como Irmã Genoveva, nascida em 1909, permaneceria por tempo limitado em Cruzeiro, seguindo o regime na época da Ordem Vicentina. Procedente de Assis (SP), a irmã cumpriria metas em Cruzeiro antes de seguir para outra cidade.

No entanto, fruto da repercussão alcançada por seu empenho na Santa Casa de Misericórdia, a Diocese de Lorena entendeu que a permanência seria pelo tempo que Alvin julgasse necessário. Para tanto, a Diocese teve que conseguir autorização do Papa João XXIII. Com o aval do Vaticano, Irmã Alvin atuou no hospital e supervisionou os programas sociais voltados para crianças e famílias carentes por cerca de trinta anos, até a sua morte em 1968.

A irmã de caridade desembarcou na Estação Central no início da década de 1940 com a missão de reorganizar a Santa Casa num momento de intensa crise financeira no hospital. Além de campanhas, de quermesses e de verbas públicas estaduais, Irmã Alvin conclamou médicos, parteiras e outros para o trabalho voluntário. A campanha de conscientização logo apresentou resultados. Caso contrário, a Santa Casa beirava à falência.

De perfil autoritário, de ampla visão social e administrativa, Alvin fez a Santa Casa avançar em pouco mais de uma década. Do modelo primitivo, o prédio central ganhou as dimensões que mantém até hoje.

A reconstrução do hospital, feito extraordinário. No período de expansão planejado pela irmã, a Santa Casa passou a ter Maternidade, Enfermarias e Capela. Em 1959, os leitos passaram a ter capacidade para 30 mulheres, 30 homens e 28 crianças. Além da atividade hospitalar, Irmã Alvin também abriu a Funerária São Calixto, como forma de contribuir com a renda do hospital.

Ao longo de sua permanência em Cruzeiro, Irmã Alvin soube guardar um segredo. Apenas seus médicos e pessoas mais íntimas sabiam das fortes dores que a faziam sofrer todos os dias. Nos momentos de crise, Alvin buscava refúgio na Capela para que ninguém percebesse seu sofrimento motivado provavelmente por câncer.

Aos 59 anos, Irmã Alvin faleceu em 1968. Seu nome foi perpetuado no Centro Cirúrgico da Santa Casa e na rua que liga a Avenida Major Novaes ao Morro dos Ingleses.


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