bn pref crz 24 09 2019    bn luiz octavio mega feirao nov 2019    an camara crz 03 10 2019

 

joao bastosAs eleições municipais de 1968 entraram para a história de Cruzeiro como uma das mais vibrantes. Com o slogan “É positivo, é pra frente, é diferente”, o candidato Hamilton Vieira Mendes, da Arena, pôs fim ao período de vinte anos do império de Avelino Júnior, A vitória de Hamilton Mendes fez surgir novo ciclo político e administrativo.

No mesmo pleito, a eleição de João Bastos Soares para vereador sinalizava o surgimento de nova liderança. Aos 22 anos de idade, João Bastos “roubava” a cena nos palanques eleitorais. De linguagem popular, o discurso realçava sua capacidade de persuasão. Avelino Júnior, Nesralla Rubez e Diogo Bastos, grandes líderes políticos, reconheciam João Bastos como a força do futuro.

No pleito de 68, além dos pesados discursos nos palanques, João não abria mãe de percorrer bares e botecos na periferia, sempre acompanhado do também candidato a vereador Davi Nacur, polêmico cronista e poeta. Nos bares, os dois usavam um caixote de frutas como palanque. Mas, como dois candidatos no mesmo local? Fato inusitado é que Davi Nacur, em vez de pedir votos para si, defendia que os eleitores votassem em João Bastos.

“Eu não tinha muitas pretensões na política. Mesmo eleito, eu não passaria de vereador. O João Bastos, pelo contrário, tinha tudo para crescer”, alegava Nacur.

Na chamada campanha de bar, Bastos impulsionou sua popularidade. “E não pensem que o João ficava bêbado. Quanto mais pinga bebia, melhor era o discurso”, dizia Nacur. Apesar de pedir votos para o concorrente, Davi também foi eleito vereador naquele ano (380 votos) sem ter gasto um centavo com a impressão de papel de propaganda. João Bastos foi o campeão das urnas, com 405 votos.

A permanência de Davi Nacur na Câmara não passou de seis meses. “Renunciei porque percebi que ser vereador e nada significavam a mesma merda”, justificou o irreverente poeta. João Bastos seguiu confirmando as previsões. Em 1972, foi reeleito vereador; depois, prefeito em 76, deputado federal em 82, estadual em 86 e novamente prefeito em 92.

Em 1978, João e Davi acabaram rompendo durante a campanha estadual e federal. No dia 7 de novembro, na Avenida Major Novaes, centro, o palanque do MDB estava repleto de estrelas; Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Ulisses Guimarães, Ruth Escobar, José Camargo, Paulo Scamilla, João Bastos e Davi Nacur, além de dezenas de políticos regionais.

No maior comício da história de Cruzeiro, Nacur não poupou críticas ao candidato a deputado federal José Camargo, que contava com total apoio de João Bastos. Com microfone em punho, de frente para o candidato, Davi o chamou de “direitista, oportunista e filhote da ditadura”. O discurso gerou intenso constrangimento. Encerrado o comício, João e Davi trocaram tapas e ponta pés atrás do palanque. Terminava naquele momento a amizade de mais de vinte anos.

(Paulo Antônio de Carvalho)


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