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historia 01 10 06 2019As datas passam despercebidas no calendário de Cruzeiro. Em junho de 1882 a primeira visita oficial da Comitiva Imperial de Pedro II para a vistoria às obras da Ferrovia The Minas And Rio. No mesmo mês, dois anos depois, a inauguração da ferrovia que mudou a história do município.

Iniciadas em 21 de abril de 1881, a construção da Ferrovia Cruzeiro – Sul de Minas foi considerada uma das maiores obras de engenharia do século XIX. Até Três Corações (MG) foram dezenas de pontes, viadutos, túneis e empregados cerca de quatro mil trabalhadores. A abertura do Grande Túnel, na divisa dos dois estados, com 996 metros de extensão, figurou como o maior desafio dos tempos imperiais.

Por conta da importância da ferrovia no plano de integração Rio – São Paulo – Minas que o Imperador Pedro II veio para a visita de inspeção no dia 24 de junho de 1882.

Dos 24 quilômetros do trecho paulista da ferrovia, 19 estavam concluídos no dia 24 de junho de 1882 quando Dom Pedro II e sua numerosa comitiva desembarcaram na Estação do Cruzeiro para a visita de inspeção. O relato completo da primeira estada imperial está nas páginas do Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, o mais importante diário carioca da época.

A publicação foi encontrada pelo historiador Vicente Vale durante pesquisas sobre a Ferrovia Rio Verde e suas verdadeiras influências na história de Cruzeiro e região.

A PRIMEIRA VISITA

VIAGEM - De acordo com o Jornal do Commércio, o trem especial de Dom Pedro II partiu da Corte (Rio de Janeiro) às 11 horas do dia 24. Após duas paradas, em Barra do Piraí (RJ) e em Barra Mansa (RJ), as autoridades chegaram à Estação do Cruzeiro às 17h30, “ao som de vivas aclamações, subindo ao ar muitas girândolas de foguetes. Ali, os esperavam os representantes e engenheiros da Estrada de Ferro Rio Verde”, informou o jornal.

HOSPEDAGEM – Em outro trecho da reportagem, o jornal salienta que “Suas Majestades e Altezas seguiram em carros (carroções) para as residências que haviam sido preparadas pela Companhia The Minas And Rio Railway no alto da mata, situada em frente à estação”. A referência desse trecho da reportagem indica a residência do engenheiro inglês, Hebert Hunt, no chamado Morro dos Ingleses, além de outras no entorno onde morava a equipe do engenheiro-chefe.

O JANTAR – Às 19 horas, foi servido o jantar. “Em uma mesa, tomaram assento SS.MM e Altezas e as pessoas que tiveram a honra de ser para ela convidadas. Em outra se sentaram as demais pessoas da comitiva.

A MISSA – Na manhã seguinte (25/06/82), às 7 horas, a comitiva e convidados assistiram missa na Capela de Santa Fortunata, na Fazenda Boa Vista.

A INSPEÇÃO – Pouco depois da missa, todos embarcaram na Estação do Cruzeiro rumo ao Grande Túnel, na divisa com Minas Gerais. De trem, o grupo chegou ao Km 19, ponto terminal dos trilhos até então assentados. A partir desse local, parte seguiu a cavalo e outra a pé por cerca de quatro quilômetros até o canteiro de obras do Grande Túnel. Segundo a reportagem, apenas a Imperatriz Teresa Cristina e sua dama de honra foram em carro puxado por burros.

Nesse dia, o túnel ainda estava em fase de escavação. Durante a visita de inspeção às obras, os convidados almoçaram no próprio canteiro de obras, ao ar livre, em mesas que o engenheiro Hunt mandou preparar. Após o almoço, a caravana foi a Passa Quatro, por cerca de vinte minutos, “tempo suficiente para se conhecer a boa água”.

De volta à Estação do Cruzeiro, perto das 18 horas, a Comitiva Imperial jantou na casa de Herbert Hunt antes da viagem de retorno ao Rio de Janeiro.

A INAUGURAÇÃO

Informou o Jornal do Commércio que , no dia 15 de junho de 1884, domingo, partiu de Três Corações a locomotiva Maria Fumaça em direção a Cruzeiro, na última inspeção técnica antes da inauguração. Liberada ao trânsito, a estrada de ferro aguardaria o ato inaugural.

Uma semana após, no dia 22 de junho, também domingo, Pedro II e comitiva partiram da Corte às 6 horas. Exatamente ao meio dia, ocorreu o desembarque na Estação do Cruzeiro. Pedro II estava acompanhado de Conde D’Eu, do ministro dos Estrangeiros, João da Matta Machado, e do ministro da Agricultura e Obras Públicas, Antônio Carneiro da Rocha, além de outras autoridades.

Na Estação do Cruzeiro, durante o desembarque, uma menina, filha do engenheiro Fenn, entregou à Imperatriz Teresa Cristina um ramo de flores artificiais. A solenidade de inauguração da ferrovia foi aberta com o canto do Hino Nacional, discursos de Pedro II e de outras autoridades e “entusiásticas aclamações do povo”, relatou o jornal.

Às 12h30, comitiva e convidados embarcaram rumo a Três Corações. Incluindo paradas em algumas estações, foram cerca de seis horas de viagem. Nas estações ao longo dos 170 quilômetros, todas elas enfeitadas, populares saudaram o Imperador.

Em Três Corações, a Comitiva de Pedro II permaneceu até a manhã de 24 de junho. Dois dias foram suficientes para as autoridades do governo conhecerem algumas localidades no entorno da cidade mineira.

No dia 24, às 5h30, houve missa na estação tricordiana. Pouco depois das 6 horas, o embarque de volta à Estação do Cruzeiro. Ao meio dia, todos embarcaram para o retorno ao Rio de Janeiro. O desembarque na Corte ocorreu por volta das 18 horas. Estava inaugurada oficialmente a The Minas And Rio, também conhecida com Ferrovia Rio Verde.

Comitiva de Pedro II pernoitou na casa de Herbert Hunt 

Ao contrário dos relatos de alguns historiadores locais, o Jornal do Commércio publicou que a Comitiva Imperial de Pedro II ficou hospedada na noite de 24 para 25 de junho de 1882 na residência do engenheiro Herbert Hunt e não no casarão da Fazenda Boa Vista. Durante décadas, historiadores insistiram com a versão mentirosa. Foi a única vez em que a figura maior do Império e seus convidados dormiram na região da Estação do Cruzeiro.

A Comitiva Imperial jamais pernoitaria na Fazenda Boa Vista porque o casarão (atual museu) não dispunha de instalações sanitárias internas. Tomava-se banho em bacia nos quartos e, para as demais necessidades, usava-se pinico. Habituada ao luxo, a comitiva não se disporia a tal precariedade higiênica.

Por outro lado, a residência do inglês Herbert Hunt despontava como a mais moderna da região, contava com toda estrutura necessária, água aquecida em serpentina de fogão a lenha, sanitário, banheira e rede de esgotos. Lá, Pedro e seus convidados passaram a noite de 24 para 25 de junho de 1882, antes de seguir viagem até o alto da serra.

A Casa dos Ingleses é atualmente conhecida como Casa de Nazaré. Ainda é possível visualizar parte das instalações hidráulicas dos tempos do engenheiro Herbert Hunt.

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