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Conheça o martírio da escrava Rita, na Fazenda Boa Vista

historia fazenda boa vistaA ação de liberdade da escrava Rita foi um dos momentos mais marcantes da história dos escravos da Fazenda Boa Vista, em Cruzeiro. De um lado, o pardo Elíseo Telles de Castro, filho de Rita; do outro, o Major Manoel de Freitas Novaes e sua esposa Fortunata Joaquina, donos da Boa Vista.

Nesse tempo, a sede administrativa (cidade) de Cruzeiro ficava no Embaú. Cerca de oito quilômetros adiante, na estrada em direção a Pinheiros, a Fazenda Boa Vista figurava como grande produtora de café, também famosa por ser comandada por fazendeiro possessivo e intolerante, o poderoso Major Novaes.

No mesmo período, o regime de escravidão entrava em decadência no País. Por força da Lei 2040, de 20 de setembro de 1870, os escravos passaram a ter direito à liberdade permitida por indenização. Também vigorava desde 1871 a Lei do Ventre Livre e já se defendia a Lei dos Sexagenários, editada em 1885.

Com base na lei de 1870 (de liberdade por indenização), o pardo Elíseo Telles de Castro, filho da escrava Rita, ingressou no Fórum de Lorena com o intuito de livrar a mãe da escravidão. Protocolizado no dia 2 de agosto de 1873, o processo foi concluído no dia 20 do mesmo mês. Apesar da rápida tramitação, de apenas 12 dias, o caso foi marcado por polêmicas. Houve a necessidade de intervenção policial na Boa Vista diante da recusa do Major Novaes de entregar Rita ao filho.

PARA ENTENDER

Nascida na Boa Vista, a negra Rita foi criada no casarão como se filha fosse de Dona Fortunata. Bom saber que, antes do casamento com Manoel Novaes em 1865,Fortunata acumulava dois matrimônios anteriores. Em 1815, aos 15 anos de idade, casou-se com Joaquim Ferreira da Silva, o primeiro proprietário da Boa Vista. Com a morte de Joaquim, em junho de 1837, Fortunata casou-se perto de 1840 com o Capitão Antônio Dias Telles de Castro, rico fazendeiro em Lorena. Foi Telles de Castro quem construiu o casarão da Boa Vista (hoje museu), em 1842.

Por que Elíseo, o filho de Rita, teve o mesmo sobrenome do capitão? Há indícios de que Antônio teve um romance com Rita sob consentimento da esposa Fortunata. Além se considerar Rita como filha, Fortunata tratava Elíseo como neto. Há uma razão. Fortunata era infértil. Naquele tempo também comum os grandes fazendeiros terem filhos bastardos, geralmente com as “negrinhas” da senzala.

Com a morte de Antônio Telles de Castro em 1857, Fortunata permaneceu viúva até 1865. Com 65 anos de idade, a proprietária da Boa Vista acumulava problemas de saúde quando se casou no dia 2 de outubro daquele ano com Manoel de Freitas Novaes, de 36 anos. No momento em que Fortunata entrava no terceiro matrimônio, Elíseo já havia deixado a fazenda. Morando e trabalhando em Lorena, o pardo tratou de fazer economias para garantir o sonho de lutar pela liberdade da mãe.

A AÇÃO

As economias de Elíseo garantiram a Rita os 600$000 réis, montante depositado na Coletoria de Lorena, suficiente para a abertura do processo de liberdade. Duramente, Novaes rebateu a ação, assegurando que a escrava “não sairá de sua casa”, por ser de sua propriedade e que “só elle tem direitos que devem ser religiosamente respeitados e observados”, afirmações do major que constam no processo. Com 16 folhas, a tramitação da ação de liberdade de Rita foi concluída em apenas doze dias.

Mesmo após a decisão judicial, Novaes ainda tentou resistir. Além de não abrir as porteiras da fazenda para a saída de Rita, o major ainda advertiu que seus homens estavam fortemente armados para enfrentar a força policial. O intolerante fazendeiro também determinou que Rita fosse acorrentada a um tronco, com par de esporas nos pés, privada de alimentação durante dias.

Fortunata, segundo versões da época, não tolerava o rigor imposto pelo marido aos negros da Boa Vista, notadamente no episódio envolvendo Rita, mas nada pode fazer.

Diante da intolerância e das ameaças de Novas, o Juiz de Orphãos, João Ignácio Bittencourt, de Lorena, designou no dia 20 de agosto o Tenente João Baptista Novaes Ozório para comandar o policiamento até a Boa Vista. A partir do Embaú, a força policial também passou a contar com voluntários revoltados com a resistência do major.

Durante a caminhada, a partir do Embaú, “tocava-se clarim pelas estradas aos gritos de que haviam de matar o major ou tirar-lhe a preta”. Apesar das ameaças do major de que seus capangas estariam fortemente armados, nenhuma resistência ocorreu no momento em que a força policial chegou à Boa Vista para libertar Rita das correntes do tronco.

O sol estava se pondo quando Rita e Elíseo deixaram a fazenda. Pouco antes da porteira, mãe e filho viraram-se para o casarão. Do alto da janela de seu quarto, Fortunata os observava. Sorridentes, os três de despediram com acenos de mãos. Rita e Elíseo seguiram para Lorena.

Menos de um ano depois, no dia 11 de maio de 1874, Fortunata Joaquina faleceu aos 74 anos de idade. Então, o Major Novaes herdou a Fazenda Boa Vista.


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