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Por Paulo Antônio de Carvalho

Ex-prostituta em Cruzeiro conta como a paixão mudou sua vida

Dezembro de 1962, primeiro sábado do mês. O apito da Maria Fumaça anuncia a parada do trem noturno com os vagões de passageiros lotados. Na Estação Central, o desembarque é frenético, gente para todo lado vinda de São Paulo, do Rio e de Minas. Poucos seguem em direção aos hotéis, na Rua 2. A maioria toma direção oposta. As passadas largas são de homens apressados rumo ao Bairro do Norte. Lá, eles vão passar a noite bebendo, jogando e desfrutando de atraentes mulheres da Zona do Meretrício, a maior da região.

Horas antes, à tarde, levando ou trazendo mulheres dos salões de cabeleireiros, o trânsito de charretes é intenso. A noite chega. Produzidas - cabelos moldados a laquê e roupas sensuais - as damas da noite estão prontas para servir aos desejos da entusiasmada clientela. Não para qualquer homem a virada da madrugada nos cabarés. O refinado trato exige boas posses. Do contrário, opções mais baratas apenas em alguns becos quase despencando no Paraíba.  A noite é de glamour, de muito dinheiro e capaz até de gerar paixões.

“Eu tenho lembranças daquele tempo, ganhei dinheiro, fiz amizades, gerei amores e, quando você me pergunta sobre a zona, parece que não foi há tanto tempo assim”, observa uma das poucas ainda vivas e da época de ouro da Zona de Cruzeiro. Encontrada pela equipe de O IMPACTO, a aposentada dama da noite será chamada de Jurema nessa entrevista, nome fictício a pedido da própria. Viúva, 83 anos, Jurema é mães de três filhos formados em engenharia, medicina e odontologia, todos do mesmo casamento, avó de cinco e residente no Rio de Janeiro.

“Eu fui parar na Zona de Cruzeiro levada por uma amiga. Eu tinha uns trinta anos e já fazia programas por opção desde os vinte. Por essa razão que deixei a casa dos meus pais. Quando cheguei a Cruzeiro, fiquei impressionado com o tamanho da zona. Ela parecia maior que a cidade. Aí, então, eu falei: aqui vou ganhar a vida”, lembra Jurema.

P – As prostitutas daquela época também eram chamadas de mulheres de vida fácil, termo ofensivo ou não em sua opinião?

J – A gente era chamada de tudo que é nome pejorativo porque havia grande preconceito. Essa vida, naquela época ou agora, não é nada fácil. Eu ainda selecionava os clientes. Não me sentia obrigada a ir para a cama com qualquer um, mas muitas se deitavam com homens violentos, bêbados ou imundos até por questão de sobrevivência.

P – E como vocês reagiam diante dos insultos?

J – No meu caso, não passava recibo. A gente usava muita charrete. Quando passava pelas ruas, sempre havia alguém apontando ou olhando. Quando a gente entrava numa loja, as outras mulheres se afastavam. Era assim, diferente de hoje em que a prostituição não encontra tanta resistência.

P – A cidade era bem pequena na época, todos se conheciam.

J – Exato. Era uma cidade gostosa, bonita e muito movimentada. Não sei hoje, mas tinha dois ou três cinemas e o teatro, dois frigoríficos e uma fábrica de vagões.

P – Dizem que vocês tinham muito crédito no comércio.

J – Sim. As mais conhecidas tinham crédito. A conta era marcada na caderneta em algumas lojas de móveis, de roupas e pagávamos sempre no começo do mês. Eu cheguei a pagar na cama a conta da loja de um turco. Tinha um português, um homem alto e de bigode, que também recebia na cama. Fora isso, a gente pagava direitinho e tinha crédito.

P – Esses homens também frequentavam a zona?

J – Os ricos da cidade, os comerciantes, fazendeiros e os políticos iam à tarde. Eram bem discretos e já tinham endereço certo. Eles eram muito conhecidos e não queriam ser vistos lá à noite.

P – É verdade que um padre também?

J – Havia um padre, não me lembro o nome porque o nome era bem diferente. Ele aparecia lá uma ou duas vezes por mês.

P – Ia para rezar?

J – Onde eu morava, ele nunca foi. Em algumas, ele ia não sei se apenas pra rezar. Ele ia sempre na Rosinha, uma morena linda e de um corpão invejável. Acho que o nome dela era esse mesmo. Se fosse por outro motivo, nada contra. Antes de ser padre, ele era homem. Ele aparecia sempre acompanhado de um locutor ou de um advogado. Também tinha um médico, baixinho, de sotaque nordestino. Ele ia lá fazer exames ginecológicos, mas era bem safadinho.

P – E político, havia algum famoso?

J – Tinha um que foi deputado. Era rico e dava boas gorjetas. Ele também ia muito na casa da Rosinha. Militares iam lá, mas não queriam pagar. Se achavam. Bons eram os fazendeiros e os comerciantes. Quase todos iam lá à tarde.

P – A zona gerou paixões?

J – Isso era comum. Teve casos de homens ricos que tiraram mulheres da prostituição, montaram casa na cidade e até tiveram filhos. Cruzeiro deve ter várias famílias que começaram a partir de mulheres da zona.

P – E quando você deixou a zona?

J – Foi no começo dos anos de 70. A zona já estava enfraquecida, havia muita pressão da igreja, do prefeito e da polícia. Teve uma mulher que feriu um delegado com uma navalha. Esse delegado queria que ela fosse amante dele, mas que continuasse morando lá. Não tinha jeito dela evitar outros homens, aí ele ficou com ciúmes e brigaram. Então, viatura começou a ir todas as noites.

P – Em meio à repressão, você decidiu retornar ao Rio?

J – Não. Eu saí nessa época, mas não por esse motivo. Eu saí por uma paixão que mudou a minha vida. Certa noite, numa sexta-feira movimentada, chegou um cliente na boate. Ele seguia de São Paulo para o Rio e parou lá. Interessante. Ele me cativou pelo olhar e pelo simples cumprimento. Fomos para o quarto e de lá saímos somente na manhã de sábado. Ele pagou, saiu, mas parecia que não queria ir embora. Naquele mesmo dia, à noite, ele voltou e novamente ficamos juntos. No domingo à tarde, antes de embarcar no trem, ele retornou pela terceira vez, levou uma rosa vermelha e disse que estava apaixonado. Eu nunca havia ganhado uma rosa. Eu chorei, o abracei e o beijei como um a garota adolescente. Eu também senti por ele algo diferente.

P – Pelo visto, esse homem pegou você pelo coração?

J – Eu nem me preocupei saber se era rico ou pobre. Sabia que era comerciante no Rio porque ele contou. Durante mais dois ou três meses, ele chegava na sexta-feira e seguia no trem da madrugada de segunda.  Foi então que eu passei de mulher de zona para namorada. Aquilo foi maravilhoso, a atenção dele, o carinho, a energia que um transmitia para o outro. Não teve jeito. Acabei vindo pro Rio com ele, nos casamos, tivemos filhos e netos. Foi uma paixão ardente e de muito respeito que me fez descobrir o sentido de família. Pena que ele se foi ha uns dez anos. Mas eu sinto que ele está comigo sempre. Saudade do meu velho.

P – Como foi essa transição, de mulher da zona para esposa.

J – Eu voltei a estudar, fiz curso de Técnico de Contabilidade e trabalhei na loja com ele. Nós estávamos todo dia, toda hora, juntos. Foi assim que formamos uma grande família.

P – Seus filhos e netos sabem do seu passado em Cruzeiro?

J – Claro. Nunca escondi nada deles. Sempre tive conversa franca com todos. Não me envergonho do que fiz e nem me sinto uma pecadora ter sido garota de programa, como se diz hoje.

P - E, se uma neta sua quisesse fazer o mesmo, você impediria?

J – Eu recomendaria não entrar nessa vida. A beleza tem prazo de validade e a maioria das prostitutas acaba nas drogas e na sarjeta. Eu tive sorte de encontrar um grande homem, que me fez sentir mulher e não uma puta e com ele formamos uma linda família, concluiu Jurema. A entrevista foi concedida por telefone.

HISTÓRICO

A Zona do Meretrício surgiu em Cruzeiro no início da década de 1880, quando da construção da Ferrovia The Minas And Rio. Centenas de operários, alojados no pátio da Estação Central e na região do Grande Túnel, não passariam mais de três anos (tempo de duração da obra) sem satisfazer seus desejos sexuais.  Por tal razão, Herbert Hunt, o engenheiro chefe da companhia ferroviária, promoveu a vinda de mulheres “de vida fácil”.

No início do ciclo da prostituição, elas atendiam em barracas de lona dispostas no pátio da ferrovia. Depois, surgiram as primeiras casas no Bairro do Norte, referência às mulheres nordestinas que compunham o maior efetivo.

Durante quase cem anos, a Zona de Cruzeiro foi considerada uma das maiores do eixo Rio – São Paulo e importante sustentáculo da economia local.

Reportagem publicada no Jornal O IMPACTO, edição de 31 de julho de 2015

Jurema faleceu no dia 27 de maio de 2016, aos 84 anos.


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