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gui 01Entrevista

Naquele tempo, pra ser gay, tinha que ser muito macho

Guilherme Cândido Correa, o Guigui, aos 65 anos, está de bem com a vida. “Vivo só, mas nunca isolado, tenho muitos amigos e amigas e o prazer de ser bem recebido em todos os ambientes”, afi rma. A satisfação de Guigui está na aceitação popular. O jeito simpático, sorridente e o estilo irreverente definem a personalidade de uma das pessoas mais populares e queridas da cidade. “Para ser feliz, a pessoa tem que ser do jeito que é, sem querer forçar estilo apenas para agradar a si ou aos outros”, observa.

Nascido em Três Corações (MG), Guilherme veio para Cruzeiro ainda criança, em 1956, com os pais e três irmãs.

Cursou o fundamental (primário) e o médio nas escolas Mário da Silva Pinto, Virgílio Antunes e Oswaldo Cruz. No final da adolescência, trabalhou por pouco tempo no Café Ouro Verde. Aos 18 anos, concluiu o curso de cabeleireiro com a professora Geni.

Nesse tempo, início da década de 1970, Guigui sabia o que queria da vida. Além de cabeleireiro,

não temia mostrar sua opção sexual e o figurino “um tanto quanto inadequado para os padrões sociais da época”, estilo que mais tarde o tornaria uma figura ímpar em Cruzeiro.

Ser gay naquele tempo não era para qualquer um. Tinha que ser muito macho”, afirma

Guigui. Sim, a sociedade ainda carregava enraizados conceitos de comportamento.

Absurdo e intolerável, por exemplo, mulher engravidar antes do casamento. Um grande escândalo a envergonhar a família. Aos filhos, a destinação de verdadeiros varões. Pai nenhum seria capaz de tolerar um filho homossexual.

Havia vários gays na cidade naquele tempo, mas quase todos procuravam esconder sua opção sexual. Eu, não. Tive a coragem de mostrar quem eu era porque sempre fui assim”, explica Guigui na entrevista ao O IMPACTO.

IN – Como as pessoas reagiam?

Guigui – No começo, eu fui ofendido. Teve uma vez que até jogaram pedra. Não foi fácil, mas eu resisti e, com o passar dos anos, as pessoas foram me conhecendo e me respeitando.

IN – Quando você percebeu esse seu lado?

Guigui – Eu tinha uns seis anos de idade quando eu percebi a atração por outro garoto. Foi aí que começou.

IN – Com seis anos? E como reagiu sua família?

Guigui – Minha mãe logo percebeu que eu era diferente. Ela entendeu porque mão é mãe. Meu pai não aceitava.

Afinal, o único filho tinha que ser um varão, mas ele evitava falar.

Minhas três irmãs convivem bem comigo, com muito respeito.

IN – Você se coloca como nesse universo homossexual?

Guigui – Não quero ser mulher.

Sou um homem que se veste como gosta. Sou, no fundo, uma drag queen, um homem que se veste de mulher.

Há muita diferença entre ser drag ou ser travesti. Muitos não sabem estabelecer a diferença. Mas, isso não interessa. Bom mesmo a ser feliz do jeito que somos.

IN – Você já se relacionou sexualmente com mulheres?

Guigui – Não.

IN – Fale de uma paixão.

Guigui – Tive uma grande paixão, amor platônico, ele não correspondida.

Ele não sabia porque eu não deixava transparecer. Sabia que ele não aceitaria.

IN – Mas, ele nunca soube?

Guigui – Soube depois de adulto.

Eu contei e demos muita risada. Não me pergunte quem porque não vou revelar.

IN – Não ser correspondido, causou alguma frustração?

Guigui – Não. Eu soube superar.

IN – Como você encara a homofobia?

Guigui – Isso é coisa de gente frustrada. Cada um deve cuidar da sua própria vida.

IN – Um homem e uma mulher por quem você nutre admiração.

Guigui – Elas já morreram. Eu adorava a Edna Pinto, uma mulher de estilo próprio, fina e inteligente. Também admirava o Sebastião Pinto, pela sua simpatia, elegância, pela maneira sorridente como tratava a todos em sua loja.

IN – Você é devoto de...

Guigui – De Nossa Senhora Aparecida. Há 14 anos, teve um assalto no meu salão. Um dos dois bandidos me atirou nas costas. Quase morri, mas sei que minha devoção à Nossa Senhora me curou.

IN – Seu time de coração?

Guigui – Sou corintiano.

IN – E a cidade em sua opinião?

Guigui – É a cidade que amo, linda, hospitaleira, mas que vem sofrendo com essas brigas políticas. Tenho saudade do carnaval, do Capitólio. Cruzeiro está carente de emprego e de atividades culturais.

IN – Nunca pensou ser candidato a cargo eletivo?

Guigui – Não, mas é um caso a pensar para as próximas eleições.

IN – Você é carnavalesco nato.

Guigui – Adoro carnaval. Além das escolas samba de Cruzeiro, desfilei no Rio de Janeiro, na Banda Carmem Miranda e na Banda Ipanema; em São Paulo, na Banda do Redondo (SP). Já estive em quatro Paradas Gay em São Paulo.

IN – Inimigos, você os tem?

Guigui – Não tenho, mas ninguém é doce pra todo mundo gostar. Ódio e rancor fazem mal a quem tem. Quando não se gosta de alguém, é melhor afastar.

IN – Mais de quarenta anos depois de você ter sido um dos primeiros, talvez o primeiro em Cruzeiro, a assumir publicamente a sua opção sexual, qual a recomendação aos que não saíram do “armário”?

Guigui – Eu já disse que naquele tempo tinha que ser muito macho assumir essa opção. Hoje, não. A sociedade amadureceu, se modernizou. O preconceito está acabando. O importante, gente, é ser feliz do que jeito que somos, sabendo respeitar e ser respeitado.

IN – Essa a sua filosofia de vida?

Guigui – Pecar é querer o mal dos outros, pensar mal a respeito dos outros. Cada um tem que saber cuidar da sua vida. Nada melhor do que sorrir, de se sentir feliz do jeito que cada um é. Dessa vida, nada levamos. Do que deixamos, fi ca a simpatia, a educação, o respeito, coisas que valem mais que qualquer herança material.

 

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