bn pref crz 24 09 2019    bn luiz octavio mega feirao nov 2019    an camara crz 03 10 2019

Uma história sem imagem e marcada pelo desrespeito

(Paulo Antônio de Carvalho)

A exclusão do nome de Fortunata nos relatos da história de Cruzeiro perdurou durante décadas. Escrever sobre ela seria remexer na verdadeira história da Fazenda Boa Vista, fato que não agradava a interesses familiares. Melhor, então, seria manter Fortunata apagada na história. No entanto, graças às pesquisas dos historiadores Carlos Borromeu e Vicente Vale, os holofotes do passado resgataram a importância da grande mulher.

Nascida no Embaú em 11 de maio de 1800, Fortunata Joaquina do Nascimento, aos 15 anos, casou com o Capitão Joaquim Ferreira da Silva, de cerca de 40 anos, dono da Fazenda Boa Vista e um dos mais ricos fazendeiros de café da região.

O casamento de Fortunata e Joaquim perdurou até a morte dele em 1837, assassinado a facadas por um escravo vindo de Campanha (MG), crime apontado como encomendado por algum rival do fazendeiro. Com a morte do marido, Fotunata herdou a imensa Boa Vista, de quase 900 hectares, e nomeou como seu inventariante o Capitão Antônio Dias Telles de Castro, outro rico fazendeiro.

Foi com o Capitão Telles que Fortunata casou pela segunda vez. O fato gerou rumores do suposto envolvimento do casal na morte do Coronel Joaquim Ferreira da Silva. Por que um homem sairia de tão longe (de Campanha (MG) para cometer um assassinato na Fazenda Boa Vista?

O pesquisador Vicente Vale chegou a pesquisar o caso, sem conclusão porque a maior parte do processo teria desaparecido. No final, apesar da suspeição, nada ficou provado contra o casal.

O segundo casamento de Fotunata terminou com a morte natural de Antônio Telles de Castro em 1853. Doze anos depois, já contando 65 anos de idade e com sérios problemas de saúde, Fortunata casou pela terceira vez com o jovem Manoel de Freitas Novaes, de 36 anos. A diferença de idade entre os dois - de 29 anos - gerou comentários do tipo “golpe do baú”.

Além de Manoel Novaes, havia outros interessados na rica fazendeira. Fortunata não possuía filhos, motivo do grande assédio. Prevaleceu a amizade que Fortunata nutria com Dona Clara Novaes, mãe do jovem Manoel Novaes.

Para ele, um casamento lucrativo. Manoel já havia herdado do pai extensa propriedade que avançava desde as proximidades de Pinheiros até o Rio do Lopes (atual Vila João Batista), fazendo divisa com a Fazenda Boa Vista. O casamento também representaria a junção das duas fazendas. Nove anos após o enlace, em 1974, faleceu Fortunata e coube ao marido herdar todo o patrimônio da Boa Vista.

A MÃE ADOTIVA – Sem Filhos, Fortunata tratava os das escravas como se dela fossem. O salão térreo da casa sede (hoje, museu) mais parecia creche. As crianças também podiam rezar todos os domingos no oratório interno do casarão. Fortunata não aceitava que os escravos fossem torturados. Mesmo assim, as surras ocorriam longe de seus olhos.

Caso histórico o do pardo Elíseo Telles de Castro e de sua mãe, a escrava Rita, a predileta de Fortunata. Há indícios de que Elíseo era filho bastardo do Capitão Antônio, o segundo marido de Fortunata. Além do sobrenome, Elíseo não figurava na lista de escravos da Boa Vista. Tratado com os privilégios de Fortunata, ao completar 18 anos, Elíseo pode deixar a fazenda para estudar e trabalhar em Lorena. Boa parte do que ganhou, economizou para pagar a liberdade da mãe Rita.

Duramente, o Major Novaes se opôs. O processo de alforria de Rita durou menos de um mês, em agosto de 1873. Apesar da decisão judicial, Novaes recusava libertar a negra, alegando ser ela de sua propriedade. Foi necessária a invasão da Boa Vista por tropa de soldados de Lorena e de Cachoeira Paulista, comanda pelo Capitão Raimundo Ferreira. No momento em que a tropa chegou, Rita estava amarrada numa árvore havia três dias por ordem do major.

Contrária ao posicionamento do marido, Fortunata assistiu da janela de seu quarto o momento em que Rita foi levada por Elíseo. Acamada, Fortunata acenou para Rita numa melancólica despedida, mas satisfeita por saber que mãe e filho estariam juntos e livres.

O DESCASO – Não há nos arquivos da Boa Vista nenhum registro fotográfico, objetos ou manuscritos que lembrem a vida de Fortunata. Tudo teria sido destruído a mando de Eva Maria, com quem Novaes casou após a morte de Fortunata.

Falecida em 5 de junho de 1874, Fortunata  foi sepultada na própria Boa Vista. Sobre sua sepultura, o Major Novaes mandou construir a Capela de Santa Fortunata. A capela foi destruída por um incêndio em setembro de 1974. Ainda hoje os restos mortais de Fortunata Joaquina estão sob os escombros da capela. Flagrante desrespeito.


an byomed