bn pref crz 24 09 2019    bn luiz octavio mega feirao nov 2019    an camara crz 03 10 2019

 

Dona TitaMarço, mês das mulheres. O IMPACTO buscou no passado o perfil de mulheres que exerceram papéis destacados na história de Cruzeiro desde antes da fundação do município. No ciclo da evolução social em que o papel das mulheres não ultrapassava os limites do lar, houve quem se colocasse bem adiante de seu tempo, superando a chamada imposição do machismo e dos preconceitos.

Seja na área social, na política, nas artes ou na assistência médica, Cruzeiro não pode colocar à margem da história nomes que marcaram em suas áreas de atuação. Das várias mulheres merecedoras, O IMPACTO escolheu três; Celestina Novaes (Tita), Dona Fortunata e a Irmã Alvin. No primeiro capítulo, a marcante trajetória de Dona Tita.

Em nome delas, retratando suas brilhantes trajetórias, a homenagem a todas aquelas capazes de quebrar tabus e de se colocarem no topo dos ciclos de evolução de Cruzeiro.

 

 

DONA TITA SUPEROU PRECONCEITOS E NOTABILIZOU-SE NA CARIDADE

(com base em pesquisa do escritor João de Assis)

 

Celestina Novaes dos Santos Oliveira nasceu na Fazenda Boa Vista em 29 de outubro de 1893, filha de Rosalina Novaes dos Santos e de Antônio Celestino dos Santos. Ainda na infância, ganhou o apelido de Tita. Casada com o professor Virgílio Antunes de Oliveira, Dona Tita alcançou grande projeção em Cruzeiro, retribuição ao notável trabalho social desenvolvido ao longo de sua vida.

Ainda criança, Tita sofreu com a predileção de Rosalina pelos outros dois filhos. Enquanto enaltecia a beleza da filha mais velha e mimava o filho caçula, Rosalina se referia à filha do meio (Tita) em tom jocoso: “Lili, você é feia!”.  Do pai, Antônio Celestino, recebia carinho e palavras de incentivo. De acordo com relatos, Rosalina era autoritária e preconceituosa.

Quando soube do namoro de Tita com Virgílio, a mãe se opôs duramente. Para Rosalina, o pretendente não se punha no nível do status da família Novaes.  Tita deveria ser casar com médico, fazendeiro ou com alguém de grandes posses; não com um professor.

Rosalina talvez carregasse o trauma do casamento com Antônio Celestino, imposto pelo pai, o Major Novaes. Relatos davam conta de que Rosalina, ainda na adolescência, se mantinha bem próxima do Padre Ernesto Maria de Pina, o pároco do Embaú. Temendo o “pecado da carne”, o major teria tratado de encomendar a vinda do médico Antônio Celestino dos Santos, da Bahia, para o casamento com Rosalina. Da mesma forma, Rosalina desejava “arrumar” bom pretendente para a filha.

historia casal tita virgilioTita conheceu Virgílio na Escola Normal de Guaratinguetá. Para tentar distanciá-los, Rosalina tratou de transferir a filha para a Escola Normal de São Paulo. A estratégia da mãe malogrou, fortalecendo ainda mais a obstinação dos dois.

Aos 22 anos, Tita e Virgílio subiram ao altar da Basílica de Aparecida em 21 de dezembro de 1915. Apenas o pai Antônio Celestino acompanhou. De volta a Cruzeiro, o casal permaneceu na Estação Central enquanto aguardava o trem para a Lua de Mel em São Lourenço (MG). Da plataforma,  Tita observou que as janelas do casarão da Fazenda Boa Vista estavam fechadas, a mando de Rosalina, em sinal protesto contra o casamento.

No dia seguinte, num hotel na cidade mineira, Tita recebeu um telegrama da mãe informando sobre o agravamento de saúde de Antônio Celestino. “Venha sozinha”, dizia parte do telegrama. Em casa, Tita chegou acompanhada de Virgílio.  “Eu disse pra você vir sozinha”, afirmou Rosalina. Se impondo diante da mãe, Tita reagiu: “hoje, sou casada. Ou os dois, ou nenhum”, respondeu. A mãe teve que aceitar.

Tempos depois, internada na Santa Casa, perto da morte, Rosalina abraçou Virgílio enquanto afirmava: “você sabia a pérola que procurava”.  Não demorou muito, foi a vez de Antônio Celestino falecer.

O único filho de Tita e Virgílio, de nome José Geraldo, faleceu poucas horas após o nascimento. Um ano depois, problema no útero obrigou Tita a uma cirurgia e ao impedimento de contrair gravidez. O casal, então, passou a adotar crianças.

O primeiro grande feito de Tita ocorreu perto de 1920, a doação de terreno para a construção do Estádio Rosalina Novaes dos Santos (hoje, Praça Nova), doado ao Cruzeiro FC.

A relação Tita-Virgílio-Cruzeiro FC seguiu até início de 1933. Certa manhã (de dia e mês ignorados), ao entrar na sede do clube, o casal ficou irritado ao ver a foto de Virgílio Antunes, num quadro na parede, cheia de furos provavelmente causados por ponta de guarda-chuva. Apesar do pedido de desculpas da direção, Tita e Virgílio deixaram o clube.

A partir de então, Dona Tita decidiu incrementar as ações sociais. Com apoio de várias amigas, fundou a Associação Cívica Feminina de Cruzeiro em 26 de fevereiro de 1933. “Gota de Leite”, o primeiro programa social desenvolvido pela ACFC, funcionou na Santa Casa. O Dispensário Infantil foi implantado em 5 de agosto do mesmo ano, para oferecer alimentos, roupas, brinquedos e leite às crianças carentes.

Em junho de 1946, Tita abriu o Posto de Puericultura (atual Creche). Nesse momento, importantes também as ações voluntárias do pediatra Ângelo Hypólito Filho e da professora Dora Cossermelli. No posto, as crianças passaram a receber tratamento médico especializado.

Avançando nos programas sociais, Dona Tita inaugurou em 2 de outubro de 1951 a Creche Dona Tita, na Rua 4, em regime de semi internato. Atualmente, a creche atende a 40 crianças. Em 1953, a Associação Cívica Feminina construiu a sede social na Rua 3, anexo ao prédio da creche.

Tita Novaes também teve participação na vida política da cidade. Foi a primeira vereadora da história, em 1947. Em 51, foi candidata a vice-prefeita de Nesralla Rubez, sem êxito.

Dona Tita enviuvou em junho de 1949. Herdeira de parte da Fazenda Boa Vista, foi a última moradora do casarão. Em 1969, o imóvel foi desapropriado pelo governo do Estado para a implantação do museu da cidade. Celestina Novaes dos Santos Oliveira faleceu em 28 de dezembro de 1976, aos 83 anos de idade. Do casamento com Virgílio Antunes, nenhum herdeiro. Das ações sociais desenvolvidas pelo casal, há muitos.
No próximo capítulo, a notável Fortunata Joaquina do Nascimento, a proprietária da Fazenda Boa Vista.


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