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Coronel Ferreira 10Nesta quarta-feira, não há desfiles cívicos, bandas ou foguetório. O 6 de março passa mais uma vez despercebido em Cruzeiro como a verdadeira data de fundação do município. Foi nesse dia, no ano de 1871, que o governo da Província de São Paulo desmembrou de Lorena o território do Embaú para nele fundar o município de Nossa Senhora da Conceição do Cruzeiro.

O nome teve influência da tradição religiosa portuguesa e a referência a uma cruz instalada na divisa com Minas Gerais. A escolha foi dos próprios moradores do Embaú, liderados pelo Coronel José Joaquim Ferreira, engenheiro civil e líder político dos republicanos na região.

Naquele tempo, o Embaú (da extinta tribo Puris) figurava como uma das mais pujantes localidades do Vale do Paraíba, tanto que carregava o rótulo de “a capital dos sertões”, devido à sua localização como centro do cruzamento de tropas de mercadores e de exploradores entre São Paulo, Rio e Minas. O ponto de parada entre os três estados motivou o desenvolvimento do Embaú. Entendendo não haver como o vilarejo se manter como do município de Lorena, as famílias Ferreira, Bastos e Godoy, lideradas pelo Coronel José Joaquim Ferreira, iniciaram o movimento pela fundação do novo município. Em 1872, o Coronel Ferreira foi empossado no cargo de Intendente, o mesmo que prefeito.

A partir da construção das ferrovias Rio, São Paulo, Minas, entre 1875 e 1884, surgiu a Estação Central e, no entorno dela, o Povoado da Estação do Cruzeiro, vila rural do Embaú. Influenciado pelo transporte ferroviário, o Povoado da Estação cresceu mais que a cidade. Por tal razão, no dia 2 de outubro de 1901, o governo do Estado decidiu transferir a sede administrativa (cidade), do Embaú para a região da Estação Central.

Desde a fundação, em 6 de março de 1871, até a transferência da cidade, em 2 de outubro de 1901, portanto em trinta anos, o cenário geográfico, cultural e econômico passaram por marcantes alterações. A nova cidade, projetada pelo Coronel José Ferreira e pelo engenheiro inglês Herbert Hunt, surgiu com ruas largas, quarteirões bem definido e dispostos a possibilitar extraordinária visão das montanhas da Serra da Mantiqueira, apontada na época como a mais moderna da região.

Com a transferência, a Câmara Municipal decidiu em 1903 excluir o nome da santa, permanecendo apenas Cruzeiro. Em 1949, o vereador Alberto Gussen teve aprovado e sancionado o projeto que tornou o 2 de Outubro como o Dia da Cidade e não o da fundação, mantida como 6 de março de 1871.

No entanto, o Dia da Cidade acabou gerando equívoco. Por erro de interpretação ou de conhecimento, Cruzeiro passou a comemorar o 2 de outubro, esquecendo-se do 6 de março. Hilton Federici, o maior historiador de Cruzeiro, publicou vários textos alertando sobre o erro e lamentando o esquecimento da verdadeira data de nascimento do município.

POVO SOFREU COM A RESISTÊNCIA DO MAJOR NOVAES

Aprovado o projeto de construção da ferrovia em direção a Minas, em 1875, a Companhia The Minas And Rio Railway, concessionária contrata pelo governo do Império, tratou inicialmente da desapropriação de terras da Fazenda Boa Vista, do Major Novaes, para a implantação do canteiro de obras, da construção da Estação Central e do eixo ferroviário.

Após a inauguração da estrada de ferro, em 22 de junho de 1884, a companhia inglesa transferiu parte do terreno, no entorno da Estação Central, para os que nele desejassem construir residências, hospedarias e restaurantes para atender aos passageiros em baldeação nas viagens entre os três estados. Dessa forma, surgiu o pequeno e chamado Povoado da Estação do Cruzeiro, vila rural do município de Nossa Senhora da Conceição do Cruzeiro, com sede no Embaú.

Influenciado pelo fluxo ferroviário de cargas e de passageiros, o povoado exigia mais terreno para se expandir. Não poderia continuar confinado entre a Rua 2 e o Rio Paraíba. Havia, então, a necessidade de ocupação de outra gleba da Fazenda Boa Vista.

A partir daí, teve origem a maior polêmica da história. Indisposto a não abrir mão de seu patrimônio, o Major Novaes viu suas terras serem invadidas. Para conter a ação, ele mandava seus capangas demolirem à noite as paredes erguidas de dia. Na tentativa de por fim à disputa, Novaes propôs que os interessados construíssem seus imóveis desde que dispostos a lhe pagar aluguel pelo lote ocupado. Ninguém concordou. Certo seria o major vender os lotes.

Na queda de braços, os moradores pediram o apoio do Tenente Coronel José Joaquim Ferreira, principal adversário político do major. No Jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, edição de 18 de fevereiro de 1888, o Coronel Ferreira publicou manifesto dos moradores em protesto contra Novaes.

Num trecho, o manifesto afirmava que “um povo livre não pode suportar o peso da Tyrania, da violência da rapina, desse fantasma que surgiu da officina do erro e do crime”. A pesada crítica a Novaes teve endereço certo. Todos sabiam que o jornal seria lido por autoridades do Império.

Após a publicação, José Joaquim Ferreira foi mais longe. Usou de sua influência republicana para conseguir do governo da Província de São Paulo a desapropriação de mais 33 hectares da Boa Vista para a abertura das ruas 3 e 4, além das paralelas no quadrilátero entre as atuais Otávio Ramos e Othon Barcelos. A desapropriação ocorreu no dia 12 de abril de 1890.

Não pensem que o Major Novaes se conteve. Mesmo após ter recebido o valor da desapropriação, o “tirano” insistiu mandar seus capangas demolirem as casas. Na Ata da sessão da Câmara Municipal, de 15 de setembro de 1894, consta a aprovação de protesto ao Major Novaes por suas ações violentas contra os moradores da Vila da Estação do Cruzeiro.

Além da ação de demolição, Novaes também mandava os capangas da Boa Vista soltarem seus cães bravios na Estação Central para amedrontar moradores e passageiros. No dia 5 de julho de 1895, uma decisão policial obrigou a retirada dos animais.

O martírio imposto pelo Major Novaes aos habitantes perdurou ao menos por oito anos, entre 1887 e 1895. Todos os fatos sobre esse período da história são documentados. Fica a pergunta: como o major pode ter recebido o rótulo de fundador do município depois de tantas ações em opressão aos habitantes e ao crescimento do povoado?

ZONA DE PROSTITUIÇÃO FOI O PRIMEIRO BAIRRO

Responsável pela construção da Ferrovia The Minas And Rio, o engenheiro inglês, Herbert Hunt, também foi incumbido pelo Coronel Joaquim Ferreira para o projeto de abertura das primeiras ruas da Vila da Estação do Cruzeiro. Da varanda da casa onde residia, no topo do chamado Morro dos Ingleses, Hunt tratou de desenhar a nova cidade com ruas largas e quarteirões bem definidos. Ao estilo inglês, as ruas e avenidas seriam identificadas por números (Rua 1, Rua 2, Rua 3; primeira avenida, segunda avenida, etc.)

Além de elaborar o projeto da cidade, Herbert Hunt polemizou com os religiosos conservadores da região quando patrocinou a chegada de prostitutas para servir aos homens contratados para a construção da ferrovia. Hunt sabia que nenhum dos operários resistiria aos cerca de três anos da obra sem frequência sexual.

No início, as “mulheres de vida fácil” atendiam em barracas de lona nos canteiros de obras da Estação Central e da frente instalada no Grande Túnel. Depois, surgiram as casas entre a ferrovia e o Rio Paraíba compondo o Bairro do Norte, referência às mulheres nordestinas trazidas por Hunt. Assim, antes que a Vila da Estação do Cruzeiro surgisse no eixo da Rua 2, o Bairro do Norte foi o primeiro aglomerado de residências.

Fruto do conservadorismo social ditado pela tradição religiosa, historiadores evitaram citar a Zona do Meretrício como primeiro bairro da nova cidade.

 

LEI DE CRIAÇÃO MARÇO 1871

 

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LEI N. 8
Antonio da Costa Pinto Silva, Presidente da Provincia de S. Paulo, etc., etc. 
Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléa Legislativa Provincial decretou, e eu sanccionei, a seguinte Lei: 
Art. 1.º - Fica elevada á categoria de Villa, sob a denominação de Villa da Conceição do Cruzeiro, a Freguezia do Embaú, Municipio de Lorena, conservadas as actuaes divisas. 
Art. 2.º - Fica a cargo dos moradores a factura de cadêa e casa de camara. 
Art. 3.º - Revogão-se as disposições contrarias. 
Mando, portanto, a todas as autoridades,a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumprão e fação cumprir tão inteiramente como n'ella se contêm. 
O Secretario desta Provincia a faça imprimir, publicar e correr. 
Dada no Palacio do Governo de S. Paulo, aos seis dias do mez de Março de mil oitocentos setenta e um. 
(L. S.) 
Antonio Da Costa Pinto Silva. 

Carta de Lei, pela qual V. Exc. manda executar o Decreto da Assembléa Legislativa Provincial, que houve por bem sanccionar, elevando á Villa, com a denominação da-Conceição do Cruzeiro-a Freguezia do Embaú, como acima se declara. 
Para V. Exc. vêr. 
Jeronymo Ghirlanda a fez. 

Publicada na Secretaria do Governo de S. Paulo, aos seis dias do mez de Março de mil oicocentos setenta e um. 

João Carlos da Silva Telles.

 

Lei de 2 DE OUTUBRO DE 1901

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LEI N. 789, DE 2 DE OUTUBRO DE 1901 
Transfere a séde do município do Cruzeiro para a povoação da estação do mesmo nome. 
O doutor Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente do Estado de São Paulo,
Faço saber que o Congresso Legislativo decretou e eu promulgo a lei seguinte : 
Artigo 1.º - Fica transferida a séde do município do Cruzeiro para a povoação da estação do mesmo nome. 
Artigo 2.º - Revogam-se as disposições em contrario.
O secretario de Estado dos Negócios do Interior e da Justiça assim a faça executar. 
Palacio do Governo do Estado de São Paulo, aos dois do Outubro de mil novecentos e um.
FRANCISCO DE PAULA RODRIGUES ALVES 
BENTO BUENO 
Publicada na Directoria do Interior, da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e da Justiça, em dois de Outubro de mil e novecentos e um. - O director, Alvaro de Toledo.

 
 
 

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